Senado dos EUA tenta fechar as portas para veículos chineses com nova legislação
Em um movimento que contrasta com a recepção de Donald Trump ao presidente chinês Xi Jinping em Washington, senadores americanos buscam aprovar uma legislação que impediria definitivamente empresas da China de vender ou produzir carros nos Estados Unidos. A iniciativa, conhecida como Connected Vehicle Security Act of 2026, visa criar uma barreira intransponível para a indústria automobilística chinesa no mercado norte-americano, abrangendo não apenas veículos completos, mas também componentes e tecnologias de conectividade.
A proposta, liderada pelos senadores Bernie Moreno (republicano) e Elissa Slotkin (democrata), já havia passado pelo Comitê de Comércio do Senado em julho. Uma tentativa de acelerar sua aprovação por consentimento unânime na semana passada foi adiada devido à objeção do senador Rand Paul, mas os proponentes planejam retomar a discussão e buscar convencer Paul a retirar sua oposição.
A medida se alinha a um cenário de crescentes tensões comerciais e tecnológicas entre as duas maiores economias do mundo. A visita de Estado de Xi Jinping aos EUA, focada em temas como comércio e tecnologia, ocorre em paralelo a esses esforços legislativos no Capitólio. Segundo informações divulgadas, o projeto busca impedir que futuras decisões governamentais abram brechas para a entrada de veículos chineses no mercado, mesmo com possíveis flexibilizações por parte do Executivo. As informações são baseadas em reportagens sobre o andamento da legislação e as declarações dos senadores envolvidos.
Tensões comerciais e segurança nacional como justificativa
A proposta legislativa surge em um contexto onde os carros chineses já enfrentam barreiras significativas nos Estados Unidos. Além de tarifas de importação elevadas, especialmente para veículos elétricos, o governo de Joe Biden implementou em janeiro de 2025 uma regulamentação que restringe o uso de veículos conectados, softwares e componentes provenientes da China e da Rússia. O Departamento de Comércio justificou a medida com base na segurança nacional, argumentando que sistemas conectados poderiam coletar dados sensíveis sobre motoristas e infraestrutura, permitindo acesso a essas informações por países considerados adversários.
A regulamentação, que entrou em vigor em março de 2025, tornou na prática inviável a venda ou produção de automóveis de passageiros por fabricantes chineses nos EUA. Embora apresentada como uma iniciativa de proteção de dados, a medida possui um claro impacto de proteção industrial, visando salvaguardar a indústria automobilística americana e os empregos locais diante da expansão das marcas chinesas no mercado global.
Trump defende produção local, mas rejeita carros chineses montados no México
A iniciativa do Senado cria uma dinâmica interessante dentro do próprio governo americano. O ex-presidente Donald Trump expressou recentemente que não se oporia à instalação de fábricas de montadoras chinesas nos Estados Unidos, desde que a produção fosse realizada por trabalhadores americanos. Trump comparou essa possibilidade ao modelo de negócios adotado por marcas japonesas décadas atrás, que evoluíram de exportadoras para grandes fabricantes locais.
No entanto, a visão de Trump difere daquela que busca consolidar a proibição total, especialmente no que diz respeito à produção em países vizinhos. O ex-presidente demonstra forte objeção à ideia de empresas chinesas produzirem veículos no México para, posteriormente, abastecer o mercado americano. Essa posição reflete uma preocupação com a perda de empregos e a balança comercial dos Estados Unidos.
Impacto inesperado na Mercedes-Benz
Um dos aspectos mais surpreendentes da proposta em discussão no Senado é seu potencial de afetar não apenas as montadoras chinesas, mas também empresas de outros países com participação acionária chinesa significativa. O texto sugere que marcas com mais de 15% de participação de entidades chinesas em seu controle poderiam ser sujeitas às novas restrições.
Nesse cenário, a Mercedes-Benz figura como um caso particular. A estatal chinesa BAIC Group detém 9,98% do capital da Mercedes-Benz Group, enquanto Li Shufu, fundador da Geely, controla outros 9,69%. Juntos, esses acionistas chineses somam 19,67% da montadora alemã, ultrapassando o limite estabelecido pela proposta. A situação se agrava pelo fato de a Mercedes-Benz possuir uma robusta operação industrial nos Estados Unidos, com uma fábrica em Tuscaloosa, Alabama, que emprega cerca de 5.800 trabalhadores locais e produz modelos como GLE, GLS e os SUVs elétricos EQE e EQS. Cerca de 60% da produção dessa planta é destinada à exportação.
Diante desse impasse, os proponentes da legislação, Moreno e Slotkin, reconhecem a necessidade de discussões para lidar com o caso da Mercedes-Benz. Moreno indicou que a montadora alemã poderia ter até 2030 para se adequar às novas regras e que mecanismos de exceção poderiam ser considerados, evidenciando a complexidade de equilibrar a proteção industrial com os acordos comerciais e as operações já estabelecidas no país.
Barreiras regulatórias e industriais já limitam a presença chinesa
A iniciativa legislativa no Senado se soma a um conjunto de barreiras que já dificultam a entrada de veículos chineses no mercado americano. Além das tarifas de importação, a regulamentação aprovada pelo governo Biden em janeiro de 2025 sobre veículos conectados desempenha um papel crucial. Essa regra, com justificativa de segurança nacional, restringe a utilização de tecnologias e componentes de origem chinesa, impactando diretamente a viabilidade de negócios para montadoras da China.
Apesar de o discurso oficial focar na segurança de dados, o efeito de proteção à indústria automobilística dos EUA é inegável. Os próprios autores da legislação associam explicitamente a segurança nacional à necessidade de preservar a indústria e os empregos americanos frente à crescente competitividade das marcas chinesas. A proposta em tramitação visa, portanto, consolidar essas barreiras, impedindo que futuras políticas abram espaço para a concorrência chinesa, ao mesmo tempo em que levanta discussões sobre a aplicação das regras a empresas com forte investimento chinês em solo americano.
