GWM diz que entrada simultânea de fabricantes chinesas no Brasil reconfigura competição e pode reduzir espaço para marcas tradicionais estabelecidas
Em entrevista ao podcast do Motor1.com Brasil, Diego Fernandes, diretor de operações da GWM no país, afirmou que a chegada de várias montadoras chinesas pode colocar em xeque o espaço das marcas tradicionais no mercado brasileiro.
O comentário ocorreu durante o lançamento do Haval H7 e chamou atenção por ser uma provocação direta aos concorrentes: “Se vai ter espaço para todo mundo, de verdade, eu não sei. Mas eu também não sei se vai ter espaço para as tradicionais”, disse Fernandes.
As declarações foram dadas quando o executivo foi questionado sobre a chegada de novas concorrentes, como Jetour, Omoda e Geely, e sobre a capacidade de o mercado absorver tantas marcas, segundo informações divulgadas pelo Motor1.com Brasil.
Avanço das chinesas e números que explicam a disputa
Para Fernandes, o fato de várias fabricantes chinesas crescerem ao mesmo tempo torna a disputa mais acirrada. Ele citou que GWM e BYD chegaram antes de boa parte das novas concorrentes e acabaram se tornando referência para empresas que desembarcam agora no país.
Conforme o executivo, “a GWM mês a mês vem aumentando o seu volume de vendas, a BYD vem aumentando o seu volume de vendas, a Omoda vem aumentando o seu volume de vendas, a Geely vem aumentando seu volume. Todas as marcas estão crescendo e o mercado não tá crescendo nesse mesmo volume”.
Os números oficiais reforçam o contexto: segundo a Anfavea, os emplacamentos de veículos cresceram 18,1% entre janeiro e setembro de 2026. Ainda assim, várias marcas chinesas registraram avanços muito superiores a essa média, ampliando a concorrência em segmentos historicamente dominados por Volkswagen, Fiat, Chevrolet e Toyota.
Mudança no perfil de clientes e nas trocas de seminovos
Fernandes utilizou a própria trajetória da GWM no Brasil para ilustrar a migração de clientes. Quando a operação começou em abril de 2023, muitos interessados no Haval H6 vinham de modelos como Jeep Compass e Toyota Corolla Cross, e os pátios de seminovos eram ocupados principalmente por veículos dessas marcas.
Com a ampliação do portfólio, o perfil das trocas mudou. Hoje, segundo o diretor de operações, já é comum a chegada de modelos de BMW, Mercedes-Benz e Volvo nas negociações de usados, acompanhando a oferta de veículos de maior preço, como o Tank 300, o Haval H9 e o recém-lançado H7.
Essa mudança indica não apenas que clientes de marcas generalistas migram para veículos chineses, mas também que o mercado de luxo acessível passa a competir com novas alternativas vindas da China.
Estratégias distintas: GWM e BYD no Brasil
Apesar de disputarem parte do mesmo público, Fernandes destacou que GWM e BYD adotaram caminhos diferentes no país. Enquanto a BYD apostou em modelos de maior volume, com ênfase em elétricos da família Dolphin, a GWM concentrou-se em veículos de maior valor agregado.
O executivo citou diferenças de preço médio: segundo ele, o preço médio dos veículos vendidos pela GWM é de R$ 260 mil, contra cerca de R$ 170 mil da BYD. A estratégia de premiumização não impede crescimento de volume: a GWM passou de 29 mil veículos comercializados em 2024 para 42 mil em 2025, e, após registrar cerca de 64 mil emplacamentos entre janeiro e setembro de 2026, trabalha com a expectativa de chegar a 100 mil unidades em 2026.
Esses números mostram que é possível crescer mantendo preços mais elevados, desde que haja aceitação do consumidor por atributos percebidos como de maior valor.
Tecnologia, qualidade e a percepção de superioridade
Na entrevista, Fernandes foi enfático ao comparar produtos chineses aos das montadoras tradicionais, defendendo que os novos concorrentes entregam um nível de tecnologia e qualidade que dificulta a comparação com a indústria estabelecida. Segundo ele, “a superioridade é imensa”.
Trata-se, naturalmente, de uma avaliação do representante da GWM, que vê a rápida evolução dos carros chineses como uma das principais razões para a mudança no perfil do mercado. A aceleração tecnológica, aliada a estratégias de portfólio e preços, explica parte da atração do consumidor por marcas recém-chegadas.
Ao mesmo tempo, a expansão simultânea de várias marcas, cada uma com sua estratégia, destaca um ponto claro: o crescimento da oferta pode superar a velocidade de expansão da demanda, intensificando disputas por fatias de mercado já consolidadas.
Conclusão
A declaração de Diego Fernandes no podcast do Motor1.com Brasil sintetiza um momento de transição: marcas chinesas consolidam presença e redefinem parâmetros de oferta, enquanto montadoras tradicionais enfrentam pressão para se reposicionar. Dados de emplacamento e as mudanças no perfil de trocas de seminovos confirmam que a competição deixou de ser apenas sobre preço e cresceu para tecnologias, amplo portfólio e posicionamento de marca. O desfecho dessa disputa dependerá da capacidade das concorrentes tradicionais de responder às mudanças e de como o mercado brasileiro equilibrará oferta e demanda nos próximos meses.
