Avatares Políticos de IA Enganam Eleitores: Estudo Revela Falta de Transparência em 61% das Criações
IA na Política: A Nova Fronteira da Desinformação e a Urgência da Transparência
A inteligência artificial (IA) está revolucionando a forma como interagimos com o mundo digital, e o cenário político não é exceção. No Brasil, um estudo recente do Observatório das Eleições trouxe à tona uma preocupação crescente: a proliferação de avatares políticos criados por IA que operam sem a devida transparência.
Esses influenciadores artificiais, que se apresentam como eleitores, comentaristas ou personalidades populares, têm ganhado espaço nas redes sociais, influenciando o debate público. No entanto, a falta de identificação clara como conteúdo gerado por IA levanta sérias questões sobre a integridade do processo democrático e a disseminação de informações falsas.
A pesquisa, realizada pelas organizações Data Privacy Brasil e Aláfia Lab, analisou o comportamento desses avatares entre janeiro de 2025 e abril de 2026, identificando 18 casos notórios. O levantamento destaca que a maioria dessas criações digitais não cumpre as exigências de transparência estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), representando um desafio significativo para a fiscalização e o combate à desinformação.
A Invisibilidade da IA nas Redes Sociais
O levantamento do Observatório das Eleições revelou um dado alarmante: em 61% das publicações analisadas, não havia qualquer aviso de que o conteúdo havia sido gerado por inteligência artificial. Essa omissão dificulta a distinção entre opiniões humanas genuínas e narrativas construídas artificialmente, ludibriando o eleitor.
A pesquisa identificou 18 casos de avatares criados com IA atuando em diversas funções, como supostos eleitores, influenciadores, apresentadores, comentaristas e lideranças populares. A origem artificial de muitos desses perfis só foi percebida após uma análise técnica detalhada, que detectou falhas de resolução, inconsistências de proporção e elementos robotizados em áudios e imagens.
Desinformação e Violação das Regras Eleitorais
As regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para o uso de IA nas eleições exigem que materiais criados ou manipulados artificialmente tragam um aviso explícito e de fácil visualização, informando sobre a sua origem. Contudo, o estudo do Observatório das Eleições aponta que essa diretriz tem sido amplamente ignorada.
Em muitos dos casos onde havia alguma sinalização, ela aparecia de forma fragmentada, como marcadores automáticos das plataformas, marcas d’água das ferramentas de IA, ou hashtags inseridas nas publicações, dificultando a percepção clara pelo usuário.
Avatares como Vetores de Notícias Falsas
O estudo também concluiu que esses avatares funcionam como eficientes vetores de desinformação política. Em 78% dos casos mapeados, os conteúdos apresentavam alegações enganosas sobre políticos ou instituições democráticas. As plataformas mais utilizadas para a disseminação desses conteúdos foram o TikTok e o Instagram, cada uma com seis casos, seguidas pelo YouTube, com três registros.
Entre os alvos frequentes das publicações estavam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso. A disseminação de informações falsas por meio de personagens artificiais representa um grave risco à democracia.
O Fenômeno “Dona Maria” e “Seu Zé da Feira”
Um exemplo citado pelo Observatório é o da influenciadora artificial “Dona Maria”, que ganhou grande repercussão entre 2025 e 2026 com críticas ao governo federal. A personagem, retratada como uma senhora negra e idosa, gerou mais de 400 vídeos com ataques a setores da esquerda, motivando uma ação no TSE por parte de PT, PV e PCdoB. Curiosamente, perfis de esquerda passaram a publicar uma versão própria da “Dona Maria”, mantendo as características físicas, mas com discurso favorável ao presidente Lula.
Outro personagem que obteve popularidade foi o “Seu Zé da Feira”, um avatar com características de um homem idoso e negro, que critica políticos de direita. Em um de seus vídeos, ele adverte: “Não vote em políticos da direita e do centrão. PL, PP, Republicanos e União. Não tão nem aí pro povo, são sindicato de patrão”. Os posts deste avatar utilizam marca d’água da ferramenta Veo 3 e são sinalizados como sintéticos pela plataforma, indicando uma tentativa de conformidade com as regras.
Um Novo Desafio para o Ambiente Informacional
Os pesquisadores destacam que esses casos evidenciam um novo e complexo desafio para o ambiente informacional: a criação de personagens inteiros, aparentemente humanos, produzidos artificialmente para influenciar debates políticos e simular opiniões espontâneas. Essa estratégia visa moldar percepções e influenciar o eleitorado de maneira sutil e, por vezes, enganosa.

