Chile mira além de vinhos e salmão no Brasil: Pisco, cerejas e azeites ganham espaço em novas regiões
Chile busca expandir exportações ao Brasil com foco em diversificação e alcance regional
O Chile, segundo maior parceiro comercial do Brasil na América do Sul, almeja ir além de seus produtos tradicionais, como vinho e salmão. A intenção é reforçar a complementaridade produtiva entre as nações, diminuindo a dependência de commodities minerais e agropecuárias destinadas ao Hemisfério Norte.
A estratégia chilena inclui alcançar o interior do Brasil, incluindo o Nordeste, e introduzir novos produtos. O objetivo é apresentar ao mercado brasileiro uma gama mais ampla de itens, aproveitando a crescente demanda por produtos de qualidade e com valor agregado.
Essa iniciativa visa fortalecer o relacionamento comercial, que, segundo Hugo Corales, diretor comercial do ProChile, vive seu melhor momento. O ProChile é a instituição responsável pela promoção de bens e serviços chilenos no exterior. Conforme informações divulgadas pelo ProChile, o Brasil é o principal destino das exportações chilenas na América Latina.
Novos produtos e regiões em foco
Entre os novos produtos que o Chile deseja popularizar no Brasil está o pisco, um destilado de uva que já encanta os cerca de 800 mil brasileiros que visitam o país anualmente. As cerejas chilenas também são uma aposta forte, beneficiadas pela proximidade geográfica que permite a entrega fresca ao mercado brasileiro em poucos dias.
A estratégia de expansão territorial foca em alcançar o interior do Brasil e regiões como o Nordeste. A ideia é inserir produtos como queijos artesanais, azeites de oliva e os próprios pisco e vinhos em redes hoteleiras e supermercadistas locais, aproveitando o crescimento da classe média e seu interesse por gastronomia refinada.
APAS Show: Vitrine para a diversificação
Uma comitiva de 22 empresas exportadoras chilenas participou da APAS Show, em São Paulo, a maior feira supermercadista do mundo. O evento serviu como plataforma para apresentar ao varejo brasileiro produtos com identidade regional, como frutas frescas e secas, azeite de oliva, queijos, além dos já conhecidos vinhos, cervejas e pisco.
Hugo Corales destacou a importância da feira para mostrar a diversidade da produção chilena e a capacidade de atender a diferentes mercados dentro do Brasil, indo além dos tradicionais centros de consumo como Rio de Janeiro e São Paulo.
Desempenho e complementariedade comercial
Entre janeiro e abril de 2026, as vendas chilenas ao Brasil alcançaram US$ 897 milhões, representando 4,72% do total exportado pelo Chile, segundo dados do ProChile. O salmão e a truta lideram as exportações, com US$ 359 milhões (40% do total), um crescimento de 3,6% em relação ao mesmo período de 2025. “Hoje, praticamente 100% do salmão consumido no Brasil é chileno”, afirma Corales.
Os vinhos registraram US$ 64 milhões em vendas, com alta de 17,6%. Atualmente, 44% dos vinhos importados no Brasil são chilenos. O agronegócio chileno, focado em nichos de maior valor agregado e produtos de clima temperado, não compete diretamente com o brasileiro, que se destaca em commodities como milho e carne bovina.
As exportações de frutas frescas e secas também apresentaram forte crescimento. Entre janeiro e abril, foram mais de US$ 56 milhões, com destaque para as cerejas (US$ 7 milhões, +47,8%). Kiwis frescos (US$ 7 milhões, +26,4%) e tomates processados (US$ 5 milhões, +125,3%) também mostraram bom desempenho.
A tendência de consumo por saudabilidade impulsionou as vendas de nozes (US$ 3 milhões, +89,5%), amêndoas (US$ 1 milhão, +426,4%) e avelãs (US$ 2 milhões, +957,1%). As exportações de azeite de oliva somaram US$ 9 milhões, um aumento de 42,5%.
Corredor Bioceânico e futuro logístico
A sustentabilidade do comércio bilateral a longo prazo dependerá da infraestrutura logística. O Corredor Rodoviário Bioceânico de Capricórnio, que conectará Mato Grosso do Sul aos portos chilenos, promete facilitar o escoamento de mercadorias. A ratificação da Convenção de Transportes Internacionais Rodoviários (TIR) pelo Brasil agiliza os trâmites burocráticos entre os países do corredor.
Em contrapartida, o Chile se consolida como o terceiro maior destino da carne bovina brasileira, atrás apenas de China e Estados Unidos. A manutenção desse fluxo comercial é um alento para a pecuária brasileira, especialmente em um cenário de incertezas em outros mercados.

