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Tesla Promete “Open Source” de Model S e X, Mas Histórico Gera Ceticismo na Indústria

Tesla Promete “Open Source” de Model S e X, Mas Histórico Gera Ceticismo na Indústria

Elon Musk, o visionário CEO da Tesla, anunciou recentemente que os modelos S e X da montadora terão seus projetos de engenharia e design disponibilizados como código aberto (open source). A declaração, que aponta o antigo Tesla Roadster como modelo para essa iniciativa, reacende um debate sobre a transparência e a colaboração na indústria automotiva. No entanto, a experiência passada com o Roadster deixa um rastro de ceticismo, levantando questões sobre o que a Tesla realmente considera como “open source”.

A promessa de Musk, de que “tudo o que temos, vocês agora têm”, ecoa a declaração feita em novembro de 2023 sobre o Roadster original. Na época, a informação divulgada foi que todo o projeto do carro estaria totalmente aberto. Contudo, ao analisar o que foi efetivamente disponibilizado, a realidade se mostra bem diferente do conceito tradicional de código aberto, especialmente no contexto de engenharia de veículos.

Conforme informações apresentadas pelo portal Electrek…

O Legado do “Open Source” do Tesla Roadster

A iniciativa da Tesla com o Roadster remonta a um repositório no GitHub, onde foram compartilhados apenas alguns arquivos de banco de dados CAN (.dbc), totalizando cerca de 339 KB, além de um software de diagnóstico em formato ISO com 309 MB e dois guias rápidos em PDF. Essa compilação, que inclui arquivos referentes aos barramentos ESS e PEM dos modelos 1.5 e 2.0 do Roadster, foi disponibilizada em dezembro de 2022, quase um ano antes do anúncio oficial de Musk. O software de diagnóstico e os guias foram adicionados em novembro de 2023, e desde então, o repositório não registrou nenhuma atualização significativa.

A maior parte dos documentos técnicos do Roadster, como manuais de serviço e catálogos de peças, já era de acesso público. A Tesla vinha liberando esses materiais gratuitamente desde 2020, em parte devido à pressão por leis de “direito ao reparo”. Mesmo assim, foram incluídos como parte do pacote de “open source” do Roadster, o que contribui para a confusão sobre a natureza da iniciativa.

Além disso, uma seção no site de serviços da Tesla, denominada “Disclosed Research and Development Documents”, contém cinco entradas: Monitoramento da Bateria, Sistema de Exibição do Veículo, Controlador HVAC, Software de Diagnóstico e Documentos de Design. Essa documentação fica acessível apenas mediante login, o que limita ainda mais o acesso aberto.

O Que Realmente Significa “Open Source” para a Tesla?

A crítica central reside na ausência de elementos cruciais que definiriam um verdadeiro projeto de código aberto. Arquivos CAD, desenhos mecânicos detalhados, listas de materiais completas, código-fonte de firmware (apenas binários compilados foram disponibilizados), esquemáticos do módulo de eletrônica de potência, design do motor e do pacote de baterias estão notavelmente ausentes. Empresas de engenharia que analisaram os arquivos do Roadster, como a Antmicro, relataram a falta de arquivos de design de PCB (placa de circuito impresso), tendo que reconstruir as pegadas dos componentes por conta própria.

A questão da licença é outro ponto de fragilidade. O arquivo README do repositório do Roadster menciona que os materiais foram “liberados sob os termos de Documentos de Pesquisa e Desenvolvimento Divulgados para o Roadster”. No entanto, esses termos se resumem a um parágrafo de isenção de responsabilidade, sem conceder direitos explícitos de cópia, modificação ou redistribuição. Sem uma licença de código aberto ou concessão de patente, a iniciativa não se enquadra na definição padrão de “open source”, pois a Tesla mantém todos os direitos sobre a propriedade intelectual.

Essa abordagem levanta sérias dúvidas sobre a promessa de disponibilizar os projetos dos Model S e X. Considerando que a produção desses modelos foi encerrada em abril, após Musk ter priorizado a linha de produção para o robô Optimus, é possível que a iniciativa siga o mesmo caminho do Roadster: uma divulgação tardia e limitada de arquivos menos críticos.

Implicações Futuras e a Perspectiva da Indústria

Se a Tesla replicar a estratégia do Roadster para os Model S e X, o público pode esperar, na melhor das hipóteses, o software de diagnóstico, alguns bancos de dados CAN, arquivos Gerber de placas menores e a mesma declaração de isenção de responsabilidade. Componentes vitais como o sistema Autopilot, a unidade de propulsão e o pacote de baterias provavelmente permanecerão inacessíveis.

Existe, contudo, uma oportunidade para a Tesla fazer uma contribuição mais significativa. Ambos os modelos utilizam Linux, e a empresa só começou a publicar o código-fonte do kernel e do Buildroot em 2018, após ser notificada por violações da licença GPL pela Software Freedom Conservancy. Essa divulgação, segundo a própria Conservancy, nunca foi totalmente completa. Uma liberação genuína do S e X seria a chance de a Tesla finalmente cumprir integralmente suas obrigações de licenciamento.

Apesar das ressalvas, é inegável que os arquivos do Roadster, mesmo limitados, trouxeram benefícios. Oficinas independentes conseguiram manter os Roadsters mais antigos em funcionamento, e as ferramentas de diagnóstico e os bancos de dados CAN facilitaram esse trabalho. A Antmicro, por exemplo, conseguiu criar uma simulação funcional da eletrônica do carro. Poucas montadoras compartilham sequer essa quantidade de informação, e a Tesla merece crédito por isso.

Contudo, a Tesla deveria evitar chamar essa prática de “open source”. Código aberto implica a concessão de direitos, algo que a Tesla não fez. A declaração de Musk sobre compartilhar “tudo” não se concretizou, pois os arquivos CAD e o código-fonte do firmware do Roadster nunca foram divulgados. Portanto, o ceticismo em relação à promessa para os Model S e X é justificável. Uma liberação verdadeiramente aberta desses modelos seria um marco para a indústria, disponibilizando a engenharia de uma plataforma de veículo elétrico de produção em massa, refinada ao longo de 14 anos, com documentação que permitiria a engenheiros e fabricantes aprenderem e inovarem. Essa seria uma contribuição sem precedentes.

A Tesla tem a oportunidade de ser pioneira ao disponibilizar, sem custo significativo, os projetos de um carro que não está mais em produção. Ao aplicar uma licença de código aberto real, incluir os arquivos CAD e o código-fonte de firmware, e finalizar a conformidade com a GPL, a empresa faria uma contribuição valiosa. Caso contrário, repetirá a estratégia do Roadster, resultando em mais um comunicado de imprensa do que uma iniciativa de código aberto genuína.

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