Automotivo

Do De Dion Bouton 1903 ao Onix ECO: A Fascinante Saga dos Carros a Álcool no Brasil e Seu Retorno Triunfal

A longa e rica jornada do álcool como combustível automotivo no Brasil, desde os primórdios do século XX até os dias atuais.

A recente chegada do Chevrolet Onix ECO, um veículo movido exclusivamente a etanol, marca um capítulo importante na história automotiva brasileira, reacendendo a discussão sobre o uso do álcool como combustível. Essa novidade, que não se via há duas décadas, nos convida a revisitar uma trajetória fascinante que se estende por mais de um século.

O Brasil tem uma relação antiga com o álcool como alternativa energética para veículos, que remonta a muito antes da implementação do ProÁlcool em 1975. A França, pioneira na adoção de motores a explosão movidos a álcool no final do século XIX, já demonstrava o potencial desse biocombustível.

Conforme noticiado pelo jornal gaúcho A Federação em 1903, já se vislumbrava o uso de motores a álcool para suplantar combustíveis minerais caros. Naquele mesmo ano, o Rio de Janeiro sediou a bem-sucedida Exposição Internacional de Aparelhos a Álcool, que apresentou uma variedade de equipamentos e, notavelmente, dois automóveis franceses a álcool: um De Dion Bouton e um Peugeot, importados pela Borlido, Muniz & Cia. A Revista da Semana, em tom ufanista, celebrou o evento como um marco para o orgulho nacional. Um passeio no De Dion Bouton a álcool, realizado para arrecadar fundos para a Associação das Crianças Brasileiras, gerou uma rara imagem desse pioneiro veículo.

Pioneirismo e Inovações no Início do Século XX

Em 1906, Porto Alegre também realizou sua Exposição de Aparelhos a Álcool. Na ocasião, o presidente do Rio Grande do Sul, Borges de Medeiros, foi transportado em um automóvel que, segundo relatos, podia funcionar com álcool, levantando a possibilidade de um pioneiro veículo flexfuel. A escassez e o alto custo da gasolina, vendida em latas importadas, impulsionavam a busca por alternativas nacionais.

Um anúncio de 1907 do Restaurant do Leme, no Rio de Janeiro, indicava a venda de gasolina e álcool em um “ponto dos automóveis”, demonstrando a incipiente infraestrutura de abastecimento da época e a presença do álcool como opção.

USGA e o “Fordinho a Aguardente”: A Década de 1920

A década de 1920 viu a consolidação de iniciativas mais estruturadas. Em Alagoas, o engenheiro Salvador Lyra desenvolveu o USGA, um combustível à base de álcool etílico, éter etílico e óleo de mamona, lançado em 1927. Bombas exclusivas para o USGA foram instaladas em Maceió e Recife, abastecendo táxis e carros particulares. A simplicidade de adaptação dos motores da época, com baixas taxas de compressão, facilitava o uso do novo combustível.

No Rio de Janeiro, a Estação Experimental de Combustíveis e Minérios (EECM) liderada por Ernesto Fonseca Costa, Eduardo Sabino de Oliveira e Heraldo de Souza Mattos, realizou extensos estudos e testes. Em 1926, um carro Ford movido a aguardente, representado pela EECM em uma prova do Automóvel Club do Brasil, percorreu 220 km a uma velocidade média de 60 km/h. O engenheiro Fonseca Costa, em 1927, destacou a viabilidade do uso da aguardente como combustível com pequenas adaptações no carburador, ressaltando que era um produto fabricável em alambiques rudimentares.

As Primeiras Misturas e o “Álcool-Motor” na Era Vargas

Com a ascensão de Getúlio Vargas, o álcool ganhou força como componente energético nacional. Em 1931, o Decreto nº 19.717 tornou obrigatória a mistura de 5% de álcool anidro à gasolina importada, o primeiro passo para a política de mistura compulsória vigente até hoje. O debate sobre a origem do álcool, entre cana-de-açúcar e mandioca, foi superado pela força política do setor sucroalcooleiro.

O Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), criado em 1933, regulamentou o mercado e promoveu o “álcool-motor”, álcool puro comercializado a preços mais baixos que a gasolina. Apesar dos desafios como a corrosão e a resistência das distribuidoras estrangeiras, a mistura obrigatória se consolidou ao longo dos anos 1930, com percentuais que variavam entre 10% e 20% em alguns estados.

O Álcool como Estratégia em Tempos de Guerra e Crise

Durante a Segunda Guerra Mundial, a escassez de combustíveis fósseis impulsionou o uso do álcool em proporções muito maiores, demonstrando sua importância estratégica para a mobilidade do país. Com o fim da guerra e o retorno da abundância de petróleo, o álcool voltou a ser um produto secundário, absorvendo excedentes do setor sucroalcooleiro.

As crises do petróleo em 1973 e 1979, que elevaram drasticamente os preços internacionais, e o consequente endividamento externo do Brasil, criaram o cenário ideal para o lançamento do Programa Nacional do Álcool (ProÁlcool) em 1975. O programa se tornou a maior experiência mundial de uso de biocombustíveis em larga escala.

Do Fiat 147 “Cachacinha” ao Auge do ProÁlcool

A tecnologia para motores a álcool foi desenvolvida em laboratórios brasileiros, com destaque para o trabalho do coronel e engenheiro aeronáutico Urbano Ernesto Stumpf no CTA. Testes rigorosos foram realizados, culminando com o lançamento do Fiat 147 “Cachacinha” em 1979, o primeiro carro nacional produzido em série movido exclusivamente a etanol. Apesar de problemas iniciais com corrosão, a engenharia encontrou soluções, como o revestimento de níquel químico.

Outros modelos como Fusca, Passat e Corcel II também ganharam versões a álcool. O auge do ProÁlcool ocorreu em 1986, quando carros a álcool representaram 95,8% das vendas de veículos leves no Brasil. Contudo, a queda do preço do petróleo e a priorização das exportações de açúcar levaram a uma crise de abastecimento entre 1989 e 1990.

A Era Flexfuel e o Retorno do Álcool Puro

O álcool puro se tornou um nicho de mercado, com as últimas versões exclusivamente a álcool saindo de cena em 2006. A tecnologia flexfuel, lançada em 2003, permitiu que os veículos utilizassem tanto álcool quanto gasolina em qualquer proporção, revitalizando o uso do etanol. Agora, com o Onix ECO, o Brasil revisita a história do álcool puro, demonstrando a resiliência e a importância histórica deste biocombustível em sua matriz energética automotiva.

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