Renault detalha plano para levar à América Latina a estratégia europeia de eletrificação, usando parceria com a Geely para adaptar produtos ao mercado brasileiro
A Renault anunciou que pretende acelerar a eletrificação fora da Europa e vê na aliança com a chinesa Geely uma peça-chave para ampliar sua oferta de híbridos e veículos 100% elétricos no Brasil. O plano privilegia plataformas capazes de receber diferentes sistemas de propulsão, incluindo também versões flex, próprias ao mercado nacional.
O posicionamento foi exposto por Ivan Segal, vice‑presidente global de Vendas da Renault, em entrevista ao Motor1.com Brasil durante o Salão do Automóvel de Paris. Segal reconheceu que a montadora está mais avançada na Europa, onde cerca de dois em cada três veículos vendidos pela marca já são eletrificados, e disse que a experiência europeia servirá de base para a expansão internacional.
De acordo com a entrevista concedida por Ivan Segal ao Motor1.com Brasil, a estratégia global da Renault se organiza em duas frentes: uma dedicada a híbridos plenos e outra a veículos 100% elétricos, e agora será adaptada às particularidades de mercados como o brasileiro.
Estratégia de duas frentes: híbridos plenos e elétricos puros
A Renault começou há quatro anos a implantar na Europa a chamada estratégia de duas frentes, que separa as linhas de produto entre híbridos plenos e elétricos puros. Segundo Segal, essa divisão permitiu à marca acompanhar o crescimento paralelo dos dois segmentos no continente e melhorar a competitividade dos seus modelos.
O executivo explicou que a lógica é manter gamas diferenciadas, com arquiteturas e soluções próprias para cada tecnologia, em vez de tentar acomodar todos os sistemas em um mesmo projeto sem foco. Essa organização industrial ajudou a Renault a registrar crescimento expressivo de vendas de veículos 100% elétricos na Europa, com incremento superior a 74% nos últimos números apresentados por Segal.
O papel da parceria com a Geely no Brasil
No Brasil, a aliança com a Geely terá importância estratégica porque fornece plataformas modulares capazes de receber diferentes tipos de propulsão. Segal afirmou que esse arranjo permite planejar uma gama adaptada ao mercado brasileiro, com opções elétricas, híbridas e também flex, item fundamental para mercados onde o etanol é relevante.
A colaboração, segundo o executivo, não significa simplesmente rebadging de modelos Geely. A intenção é usar componentes e arquitetura comuns para desenvolver produtos com identidade própria da Renault, reduzindo custos de desenvolvimento e ampliando as possibilidades sem copiar desenhos ou posicionamentos comerciais entre as marcas.
Por que a internacionalização da eletrificação foi mais lenta
Segal admitiu que a expansão internacional da eletrificação da Renault ocorreu mais devagar do que o originalmente previsto. Durante a pandemia, a empresa concentrou investimentos e esforços no mercado europeu, priorizando a consolidação da oferta local antes de ampliar a presença de modelos eletrificados em outras regiões.
Agora, de acordo com o executivo, a empresa entrou numa fase internacional e começou a levar soluções híbridas plenas a mercados fora da Europa. No Brasil, a estratégia será aplicada respeitando o ritmo de adoção e as condições locais, com foco em competitividade de custos e adequação dos sistemas de propulsão.
Demanda por elétricos e efeito da alta dos combustíveis
Na entrevista, Ivan Segal também destacou um fator externo que tem acelerado a procura por elétricos: a instabilidade no mercado internacional de petróleo e a alta nos preços dos combustíveis. Ele citou a crise envolvendo o Irã e o Estreito de Ormuz como exemplo de choques que mudaram o cálculo econômico do consumidor em favor dos veículos elétricos.
Segundo Segal, esse cenário está alterando até o perfil dos compradores na Europa: consumidores que tradicionalmente buscavam carros usados estão antecipando a troca e migrando diretamente para modelos elétricos novos, atraídos pela perspectiva de menores custos de utilização. A Renault afirma estar se beneficiando com o desempenho de modelos como Twingo, Renault 5, Renault 4 e a renovação do Megane elétrico, que passou a contar com bateria de tecnologia LFP para aumentar sua competitividade.
Apesar do otimismo, o executivo não fixou prazos para a chegada de novos modelos ao Brasil nem detalhou quais tecnologias terão prioridade nos próximos lançamentos nacionais.
Conclusão
A Renault busca replicar fora da Europa a estratégia que já deu resultados no Velho Continente, mas adaptando o roteiro ao contexto brasileiro por meio da parceria com a Geely. A combinação entre plataformas compartilhadas, capacidade de oferecer híbridos, elétricos e versões flex, e o foco em competitividade de custos será determinante para a velocidade da eletrificação no país. Conforme sinalizado por Ivan Segal ao Motor1.com Brasil, a trajetória está traçada, mas os prazos para a disponibilidade dos novos modelos ainda dependem de decisões comerciais e industriais que serão anunciadas futuramente.
