1964 Superior Pontiac: A Rara Joia Azul Que Revive a História Funerária Americana
O Legado da Superior Coach e um Pontiac Único
Em 1964, a Pontiac atingia o auge de sua popularidade, conquistando um recorde de 9,1% do mercado americano de carros novos e consolidando-se como a terceira marca mais vendida, atrás apenas de Chevrolet e Ford. Nesse cenário de sucesso, um exemplar singular de 1964, um Pontiac Bonneville transformado em veículo de serviço pela Superior Coach Corp., emerge como uma joia rara, contando uma história de dedicação e tradição familiar no ramo funerário.
A fábrica da Superior Coach em Kosciusko, Mississippi, conhecida como sua “Divisão Sul”, produziu um total impressionante de 448 veículos funerários, limusines e ambulâncias baseados em chassis Pontiac. Deste montante, apenas uma unidade foi configurada como um Modelo 208 Service Car, com entre-eixos estendido para 146 polegadas. Este veículo exclusivo foi adquirido pelo Bear Funeral Home em Churchville, Virginia, um nome que ressoa com uma história de gerações no serviço à comunidade.
A Era de Ouro dos Carros de Serviço Funerário
Antigamente, veículos como este Pontiac estendido eram essenciais para as operações funerárias, desempenhando funções menos cerimoniais, mas igualmente cruciais. Eles eram responsáveis pela “primeira chamada”, transportando o falecido de residências ou hospitais para o necrotério, buscando caixões ou urnas no transporte ferroviário, ou ainda transportando cadeiras e tendas para cerimônias no cemitério.
Esses “cavalos de batalha” frequentemente eram construídos a partir de modelos de fábrica mais acessíveis, como Ford, Chevrolet ou Pontiac sedan deliveries. Em muitos casos, carrocerias especializadas eram aplicadas, incluindo o alongamento do entre-eixos e a adição de um segundo par de portas. Contudo, para funerárias com maior poder aquisitivo, carros de serviço baseados em Cadillac, Buick ou Packard, que combinavam com suas limusines de linha principal, não eram incomuns nas décadas de 1930 a 1950.
A customização externa desses carros de serviço geralmente incluía filetes cromados nas portas traseiras ou painéis laterais, um padrão que imitava as janelas de carros fúnebres mais elaborados. Molduras horizontais também eram comuns, servindo para emoldurar ou destacar o nome da funerária, conferindo um toque de elegância e profissionalismo ao veículo de trabalho.
A Raridade dos Sobreviventes
A expectativa de vida dos carros de serviço funerário era, por natureza, limitada. Projetados para um uso intensivo, muitos acabavam em ferros-velhos ou em segundas carreiras menos nobres, como veículos para encanadores ou pintores. Essa realidade explica a raridade desses veículos quando comparados a outros tipos de carros profissionais.
Outro fator que contribui para sua escassez é o custo de produção. Essas criações de carrocerias personalizadas eram mais caras do que as peruas produzidas em massa pelas montadoras a partir dos anos 50. Com a expansão suburbana e o “Baby Boom”, peruas como a Pontiac Safari, Ford Country Sedan ou Chrysler Town & Country, equipadas com suportes para macas e roletes para caixões, tornaram-se alternativas mais econômicas e eficazes para as “primeiras chamadas”.
Enquanto as peruas de grande porte desapareceram das linhas de montadoras americanas após 1996, as funerárias modernas utilizam minivans e vans comerciais, como Ford Transit e Mercedes Sprinter, para funções semelhantes. Essa transição demonstra a evolução contínua das ferramentas de trabalho no setor funerário, mas também ressalta o valor histórico dos veículos mais antigos e especializados.
Um Ícone Redescoberto e Admirado
A aparição deste Bonneville azul vibrante causou grande comoção entre os membros da Professional Car Society (PCS). O então proprietário, Mark Ward, o apresentou em eventos como o Micro-Meet do capítulo do Meio-Atlântico da PCS em Maryland, em fevereiro de 2024, e no Encontro Internacional da PCS em York, Pensilvânia. Esses eventos concretizaram uma esperança expressa 25 anos antes por Walt McCall, editor da publicação da PCS, The Professional Car.
Em 1998, McCall já destacava o veículo, promovendo sua venda e expressando o desejo de que encontrasse um lar apreciativo. Sua persistente admiração pelo que provavelmente era o último carro de serviço Pontiac de entre-eixos estendido construído pela Superior o levou a estampar uma foto do veículo na capa da edição de terceiro trimestre de 2000 da TPC. Aquele comentário de McCall, “Não sabemos se ele encontrou um comprador, mas deveria ter”, ecoava a incerteza sobre o destino desta peça única.
Uma Linhagem de Serviço e Tradição Familiar
A história deste Pontiac incomum começa com a firma familiar Bear Funeral Home, de Churchville, Virginia, que o manteve por 34 anos. A linhagem remonta a Christian Bear, um pioneiro de origem suíça que se estabeleceu no Shenandoah Valley no final do século XVIII. Sua família, ao longo de seis gerações, manteve um compromisso com o serviço funerário e a carpintaria, construindo caixões e oferecendo serviços relacionados.
Ephraim Baxter Bear, da terceira geração, foi um dos primeiros licenciados pelo Estado da Virgínia como embalsamador em 1894. Seus filhos, William Theodore Bear e Frank Alexander Bear, representaram a quarta geração, ambos formados em escolas de embalsamamento renomadas. “W.T.” foi também um construtor, enquanto Frank era um veterano da Primeira Guerra Mundial e um habilidoso marceneiro.
A quinta geração foi representada por William Theodore “Bill” Bear II, que se juntou à empresa familiar em 1947 e permaneceu ativo até seu falecimento em 2015. Seu filho, William Theodore Bear III (“Will”), juntamente com suas irmãs, Judith e Jill, hoje lideram o negócio, que agora está na sexta geração. Will Bear recorda que o Pontiac era frequentemente usado para transportar flores para o cemitério, em vez de realizar “primeiras chamadas”.
Mistérios da Fabricação e Detalhes Únicos
As razões exatas para a configuração deste Bonneville como um carro de serviço, com seu teto preto texturizado, filetes Art Déco e preenchimentos opacos nas janelas traseiras, permanecem um mistério para a família Bear. Na época, era uma customização incomum, a ponto de não haver um registro de produção específico para o Modelo 208 no livro definitivo sobre a Superior Coach.
O compartimento traseiro possuía roletes de caixão e um suporte para maca no lado do motorista, mas sem assentos para acompanhantes. Sua fabricação foi provavelmente contabilizada entre os 25 carros fúnebres ou 147 combinações de “hearse/ambulance” que a Superior produziu naquele ano em chassis Pontiac estendidos. Mesmo o Modelo 308 de entre-eixos padrão, com um preço de varejo significativamente menor, encontrou poucos compradores, evidenciando a preferência por peruas de fábrica mais acessíveis para muitas funerárias.
Uma Nova Vida e um Novo Guardião
Após sua venda inicial em 1998, o histórico de propriedade deste carro de serviço apresenta algumas lacunas. Steve Lichtman, membro da PCS, recorda que Lew Wallace o possuiu por um tempo. Mais tarde, Mark Ward, que já havia lamentado perder a oportunidade de comprá-lo em 1998, o adquiriu em 2015 de Jon Ponulak e seu irmão. Apesar de ser anunciado como um bom carro para dirigir, ele necessitou de reparos significativos, incluindo a reconstrução da transmissão e a substituição de linhas de freio e combustível.
O interior, no entanto, estava em excelente estado, assim como o motor V-8 original de 389 polegadas cúbicas da Pontiac, que com seu carburador de quatro corpos e taxa de compressão de 10.25:1, entregava 306 cavalos de potência, mais do que suficiente para lidar com o peso adicional da carroceria da Superior.
Conversas com a família Bear confirmaram que o carro foi encomendado na cor azul para combinar com a limusine Cadillac da época, provavelmente um tom chamado Pontiac Yorktown Blue. A repintura posterior, realizada por Mark Ward, resultou em um tom mais vibrante, semelhante ao Nassau Blue. Essa informação solidifica a ideia de que o veículo foi uma encomenda especial, não uma unidade de estoque.
Tragicamente, Mark Ward faleceu em dezembro de 2025, aos 74 anos. No entanto, o 1964 Superior Pontiac Modelo 208 já encontrou um novo guardião: James Laisure, um sargento aposentado da Polícia Estadual de Maryland. A paixão de James por Pontiacs remonta ao GTO que seu pai comprou em 1965, uma lembrança que o acompanhou por toda a vida.
James conheceu Mark Ward através da Polícia Estadual de Maryland e, após saber que ele estava pensando em vender seu carro clássico, demonstrou interesse. Embora o acordo tenha sido interrompido pela doença de Mark, sua esposa, Donna, finalizou a transação, permitindo que James se tornasse o novo proprietário. Para James, a cor fantástica do carro foi o primeiro atrativo, seguido pelo fato de não ser um Cadillac, algo que ele buscava para se diferenciar. O Pontiac Superior de 1964, com sua história rica e singularidade, agora está em mãos que reconhecem e valorizam seu legado.

