O Legado de um Clássico Inesquecível
Em meio à paisagem automotiva do início do século XX, poucos nomes brilhavam com a exclusividade e o apelo do Kissel. Fabricado em Hartford, Wisconsin, entre 1907 e 1931, o Kissel Gold Bug Speedster de 1923 é um testemunho da engenhosidade e do luxo da época. Este modelo específico, com sua história rica e intrigante, pertence hoje a Ron Hausmann, um colecionador apaixonado que o resgatou de um leilão federal em 2007.
A jornada de Hausmann até possuir este exemplar remonta à sua infância, quando avistou um carro chamativo que o marcou para sempre. Anos depois, ao se aposentar, ele decidiu realizar o sonho de ter um Kissel. Sua coleção cresceu exponencialmente, chegando a dez exemplares completos e doze carros para peças. No entanto, o Gold Bug de 1923, com seu passado singular, ocupa um lugar especial em seu coração e em sua garagem.
Um Tesouro com Histórias de Hollywood e Crítica
Este não é um Gold Bug qualquer. Ele pertenceu a Andrew Kissel, um proeminente desenvolvedor imobiliário de Nova York, que teve um fim trágico e violento. Curiosamente, não há parentesco direto entre ele e a família fundadora da Kissel. O carro, que sempre foi tratado como peça de museu ou colecionador, nunca acumulou muitos quilômetros. Sua história documentada começa em Hollywood, onde foi vendido com o pacote opcional “Hollywood”, que incluía para-choques com barras, holofotes e faróis E&J.
Posteriormente, o veículo passou por um museu em Massachusetts, esteve em exibição no Autorama em Harrisburg, Pensilvânia, e foi adquirido por William Ruger, o fundador da renomada fabricante de armas Ruger. Ruger, já idoso, investiu em uma restauração completa em 1985, mas mal chegou a conduzir o carro, adicionando apenas 300 milhas em duas décadas de posse. Após sua morte, o veículo foi vendido pelo filho, eventualmente chegando às mãos de Andrew Kissel e, posteriormente, ao leilão federal.
A Inovação e o Charme do Kissel Gold Bug
A Kissel Automobile se destacou pela qualidade e pelo desempenho de seus veículos. O Gold Bug Speedster, com seu design arrojado concebido pelo distribuidor de Nova York, Conover T. Silver, era um carro esportivo de dois lugares, famoso por seus assentos retráteis em forma de gaveta nas laterais da carroceria. Entre 1920 e 1927, foram produzidas entre 100 e 150 unidades, e estima-se que apenas 37 exemplares intactos existam hoje.
O nome “Gold Bug” vinha das vibrantes pinturas amarelas que caracterizavam esses modelos. Mas o apelo ia além da cor: a carroceria baixa, os para-lamas independentes e a ausência de estribos conferiam um visual racing para a época. O motor de seis cilindros de curso longo, um marco da Kissel, permitia atingir até 70 mph (aproximadamente 112 km/h), um feito notável para os anos 1920.
Um Ícone de Prestígio e Confiabilidade
O Kissel Gold Bug atraiu a atenção de celebridades e figuras proeminentes, incluindo Amelia Earhart, Fatty Arbuckle, Ralph DePalma, Greta Garbo e Al Jolson. O pacote “Hollywood”, com seus faróis E&J e outros detalhes cromados, era um diferencial para o público de cinema. A qualidade de construção e o desempenho sólido fizeram do Gold Bug um comparativo direto de carros de luxo como Duesenberg e Stutz.
Hausmann relata que seu Gold Bug de 1923 exigiu pouca manutenção ao longo dos 41 anos em que o possuiu. Ele já conquistou diversos prêmios em eventos de prestígio como o Meadow Brook Concours d’Elegance e o Milwaukee Masterpiece. Apesar de sua confiabilidade, o carro exige esforço para ser dirigido: a ausência de direção hidráulica e a necessidade de operar diversos controles tornam a condução um desafio, algo que explica, em parte, a menor presença feminina ao volante na época.
A Durabilidade e as Peculiaridades de um Clássico
A durabilidade dos carros Kissel é lendária. Há relatos de Amelia Earhart que dirigiu um modelo semelhante do Gold Bug de Boston a São Francisco, enfrentando estradas de cascalho. A utilização de painéis de carroceria de alumínio, embora conferisse leveza, também contribuiu para que muitos exemplares não sobrevivessem à Segunda Guerra Mundial, devido à necessidade de alumínio para a indústria aeronáutica.
O carro contava com uma transmissão manual de três velocidades no assoalho e uma vasta gama de opções de personalização, desde rodas de arame ou madeira até diferentes tipos de para-choques e estribos. Apesar de toda a engenharia e do conforto relativo para a época, Hausmann confessa que nunca sentiu vontade de experimentar os assentos externos retráteis. “Can you imagine when the roads were 95 percent gravel, and you’re sitting outside? No way! You’d need a big mud flap to keep your front teeth inside,” ele brinca, destacando o quão desafiador seria dirigir nestas condições.
O Kissel Gold Bug 1923 de Ron Hausmann é mais do que um carro; é um pedaço da história automotiva americana, um símbolo de opulência, engenhosidade e das lendas que moldaram a indústria. Sua raridade e seu passado intrigante garantem seu lugar como um verdadeiro tesouro sobre rodas.
