Controvérsia na Aprovação de Data Center em Terra Federal
Uma decisão controversa do governo Trump permitiu a construção do que se acredita ser o primeiro data center em terras públicas gerenciadas pelo Bureau of Land Management (BLM). A aprovação ocorreu ao transferir uma revisão ambiental já existente, originalmente elaborada para um projeto de energia solar, para o novo empreendimento de data center de inteligência artificial. Esse movimento levantou preocupações significativas devido à falta de uma nova análise ambiental e de consulta pública sobre a mudança.
O projeto em questão, conhecido como Townsite Solar 2, obteve em 2023 uma permissão federal para construir uma fazenda solar de 19 megawatts (MW) e um sistema de armazenamento de bateria de 35 MW em uma área de aproximadamente 32 hectares na cidade de Boulder City, Nevada. No entanto, no final de 2025, o desenvolvedor solicitou a substituição do projeto de energia limpa por um data center voltado para inteligência artificial. A permissão foi alterada e aprovada pelo BLM em 26 de junho, sem que um novo processo de revisão fosse iniciado ou que a comunidade tivesse a oportunidade de expressar suas opiniões.
Da Energia Limpa ao Consumo Massivo de Energia
A disparidade entre os dois projetos é notável. Enquanto a fazenda solar original teria capacidade de gerar 19 MW de energia limpa, o novo data center de IA demandará até 167 MW de energia. Essa quantidade é suficiente para abastecer cerca de 75.000 residências, um número consideravelmente maior do que a população total de Boulder City, que conta com aproximadamente 15.000 habitantes. O data center também contará com geradores de backup, aumentando ainda mais o potencial de consumo e impacto ambiental local.
Para justificar a aprovação da mudança, o BLM utilizou um mecanismo chamado Determinação de Adequação da NEPA (National Environmental Policy Act). Este procedimento permite que agências utilizem uma análise ambiental prévia quando uma nova proposta é considerada substancialmente similar àquela já avaliada. O gerente do escritório de campo do BLM em Las Vegas, Bruce Sillitoe, concluiu que os projetos eram “substancialmente os mesmos”, citando semelhanças na área ocupada, limites, cronogramas de construção e dimensões das estruturas.
Reação Local e Preocupações com o Precedente
A justificativa do BLM foi recebida com forte oposição pela cidade de Boulder City. A porta-voz da cidade, Lisa LaPlante, expressou frustração pela falta de comunicação e oportunidade de participação comunitária. “Não tivemos conversas, não houve chance para a comunidade ou para a cidade fornecer qualquer contribuição ao governo federal”, declarou LaPlante, ressaltando o caráter sem precedentes da situação. A cidade argumenta que, mesmo sendo construído em terra federal, o data center dependerá de serviços locais, como utilidades públicas, estradas e serviços de emergência.
Anteriormente, o desenvolvedor havia buscado permissão para construir em terras de propriedade da cidade, mas foi obrigado a iniciar um novo processo de revisão com consulta pública. A Comissão de Planejamento de Boulder City votou contra a proposta, levando o Townsite Solar 2 a retirar a aplicação e, em seguida, obter a aprovação para o terreno federal adjacente. O Conselho Municipal de Boulder City votou unanimemente para apelar da decisão do BLM e solicitar a suspensão do projeto.
Alerta de Grupos Ambientais e Impacto Nacional
Grupos de conservação ambiental também manifestaram sérias preocupações, alertando que essa aprovação pode criar um precedente perigoso. A diretora do capítulo Toiyabe da Sierra Club, Olivia Tanager, descreveu a situação como uma “troca enganosa” (bait and switch). “Se permitirmos que este precedente se mantenha, o medo é que isso possa se proliferar não apenas em Nevada, mas em todo o país, em nome da agilização de data centers”, alertou Tanager. A crítica central é que um projeto que consome energia não pode ser considerado “substancialmente o mesmo” de um que a gera de forma limpa.
O desenvolvedor, Townsite Solar 2, afirma que o data center utilizará resfriamento sem água, obterá energia de suas próprias fontes renováveis e financiará iniciativas locais de energia e água. No entanto, a controvérsia permanece em torno da metodologia utilizada pelo BLM para a aprovação e o potencial impacto em futuras avaliações ambientais para projetos de infraestrutura de alta demanda energética em terras públicas.
