Automotivo

Citroën 2CV elétrico renasce na Itália: o icônico “dois cavalos” volta com nova roupagem e promete agitar o mercado europeu

O lendário Citroën 2CV, um ícone automotivo com décadas de história, está prestes a ganhar um novo e surpreendente capítulo em sua trajetória. A Stellantis confirmou o retorno do “dois cavalos”, agora repaginado e com propulsão elétrica, prometendo reviver a paixão por este modelo que marcou época na Europa e na América do Sul.

A notícia do retorno do Citroën 2CV, agora em versão elétrica e fabricado na Itália, tem gerado grande expectativa entre entusiastas de automóveis. O modelo, que teve uma produção de 42 anos e conquistou corações em diversos continentes, volta a cena com uma proposta moderna, mas sem perder sua essência.

Para entender a dimensão desse retorno, é crucial revisitarmos a história do visionário André Citroën e o contexto que deu origem a este carro tão peculiar. A ideia por trás do 2CV era criar um veículo acessível e robusto, capaz de atender às necessidades dos agricultores franceses, mas que acabou conquistando o mundo com sua simplicidade e charme.

Conforme informação divulgada pela fonte, a história do Citroën 2CV remonta aos tempos de austeridade na França após a crise de 1929. André Citroën, um industrial brilhante e pioneiro em linhas de montagem, enfrentou dificuldades financeiras após o lançamento do inovador Traction Avant. A Michelin assumiu o controle da empresa, e sob a nova gestão, o projeto T.P.V. (Très Petite Voiture, “automóvel muito pequeno”) ganhou forma.

O Nascimento de um Ícone: Do T.P.V. ao “Dois Cavalos”

O projeto T.P.V., concebido com a máxima simplicidade e baixo custo em mente, visava criar um carro capaz de transportar quatro adultos e uma carga considerável, como um barril de vinho ou um saco de batatas, a 60 km/h. A suspensão deveria ser tão flexível que permitiria rodar sobre campos arados sem quebrar ovos, e a carroceria alta, com teto de enrolar, era pensada para que os motoristas pudessem usar chapéus sem problemas. Pierre-Jules Boulanger, vice-presidente e chefe de engenharia, liderou a equipe que incluía talentos como André Lefèbvre e Flaminio Bertoni, que já haviam colaborado no Traction Avant.

Os protótipos do T.P.V. eram espartanos, com um único farol e partida por manivela. A estrutura utilizava chapas finas reforçadas por vincos para manter a leveza. O motor bicilíndrico boxer refrigerado a ar, projetado por Walter Becchia, era a alma do carro. No entanto, a eclosão da Segunda Guerra Mundial interrompeu os planos de produção em massa, e a própria fábrica destruiu a maioria dos 250 protótipos para evitar que caíssem em mãos inimigas.

A Origem do Nome e a Revolução da Potência Fiscal

Após a guerra, o projeto foi retomado e, em 1948, o Citroën 2CV (Deux Chevaux, “dois cavalos”) foi finalmente apresentado no Salão de Paris. O nome “CV” não se refere ao cavalo-vapor tradicional, mas sim ao “Cheval Fiscal” (cavalo fiscal), uma fórmula tributária francesa utilizada para calcular impostos. O motor de 375 cm³ e 9 cv reais se enquadrava perfeitamente na menor faixa tributária da época, de 2 CV fiscais.

A potência fiscal influenciou a indústria automotiva francesa por décadas, levando fabricantes a projetar motores que se encaixassem em categorias tributárias específicas. O motor do 2CV, apesar de sua baixa potência real, era ideal para o propósito de baixo custo e tributação reduzida.

Inovações e Adaptabilidade: O Sucesso do “Deuche”

O Citroën 2CV produzido a partir de 1948 manteve a essência do T.P.V. com seu teto de lona, bancos que lembravam espreguiçadeiras e um limpador de para-brisa acionado mecanicamente. Os vidros das portas dianteiras, divididos horizontalmente, permitiam a abertura da janela dobrando a parte inferior. A tração dianteira, a alavanca de câmbio saindo do painel e o chassi em plataforma independente contribuíam para a praticidade e o espaço interno.

O sistema de suspensão, com cilindros horizontais recheados de molas em cada lateral do chassi, era particularmente engenhoso. As rodas dianteira e traseira de cada lado trabalhavam interligadas, proporcionando uma suspensão extremamente macia e com grande curso, capaz de absorver impactos de terrenos irregulares com notável conforto. Essa característica, aliada aos pneus radiais Michelin, conferia ao 2CV uma estabilidade excepcional, mesmo com a carroceria apresentando considerável rolagem em curvas.

Ao longo dos anos, o motor do 2CV evoluiu em cilindrada e potência, passando de 375 cm³ (9 cv) para 425 cm³ (12 a 16 cv), 435 cm³ (23 cv) e, finalmente, para 602 cm³ (29 cv). As versões francesas de 435 cm³ foram chamadas de “2CV4” e as de 602 cm³ de “2CV6”. Na Argentina, o carro também foi popular, com os modelos de menor cilindrada sendo chamados de “2CV” e os de 602 cm³ de “3CV”.

O carro ganhou diversos apelidos ao redor do mundo, como “Deuche” na França, “Rana” na Argentina, “Citroneta” no Chile e “The Tin Snail” no Reino Unido. Nos anos 1960 e 1970, o 2CV se tornou um símbolo de liberdade e vida alternativa para os hippies, viajando pela Europa com seu design despojado.

Versatilidade e Legado: Além do Carro de Passeio

A simplicidade de desmontagem do 2CV era notável, com capô, para-lamas e laterais do capô que podiam ser removidos com facilidade. Os bancos e portas dos primeiros modelos não exigiam ferramentas para serem retirados. A versatilidade se estendeu a derivados como as furgonetas (a partir de 1951), a versão Sahara (1960-1967) com tração 4×4, o jipinho Méhari (1968-1987) e modelos com carrocerias modernizadas como o Ami (1961-1978) e o Dyane (1967-1983).

Mesmo com melhorias ao longo das décadas, como portas que abriam no sentido convencional e bancos mais confortáveis, o 2CV manteve sua simplicidade extrema. As versões com motor de 602 cm³, apesar de lentas nas primeiras gerações, ainda conseguem acompanhar o trânsito atual razoavelmente bem, graças ao seu baixo peso (menos de 600 kg), com consumo rodoviário em torno de 20 km/l.

O modelo também foi pioneiro em edições especiais a partir de 1976, como a famosa Charleston, com pintura bicolor e um toque retrô luxuoso, que acabou sendo incorporada à linha regular entre 1980 e 1990. Em 27 de julho de 1990, após mais de cinco milhões de unidades produzidas em diversos países, a fabricação do Citroën 2CV foi encerrada na França. Mesmo anacrônico, o carro mantém uma legião de fãs que promovem ralis e encontros internacionais.

O 2CV no Brasil: Uma Conexão Limitada

No Brasil, a fama mundial do Citroën 2CV não se traduziu em popularidade. Apenas um lote de cerca de 50 unidades chegou oficialmente em 1954. Posteriormente, nove exemplares do Charleston foram trazidos de Portugal em 1990 por uma importadora independente. Além disso, alguns 2CV e 3CV argentinos entraram no país informalmente. Geralmente, o brasileiro desconhece a importância histórica do “Deuche”, chegando a confundi-lo com um “Fusca adaptado”.

O retorno do Citroën 2CV, agora eletrificado e fabricado na Itália, promete reacender o interesse por este ícone automotivo. A Stellantis aposta na nostalgia e na proposta de mobilidade sustentável para dar um novo fôlego a um carro que já provou seu valor ao longo de décadas.

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