Hyundai e Kia enfrentam ação bilionária nos EUA devido a falha em sistema antifurto
Uma onda de furtos de veículos das marcas Hyundai e Kia, que ganhou notoriedade nos Estados Unidos há alguns anos, pode custar caro para as fabricantes sul-coreanas. Um grupo de aproximadamente 200 seguradoras está exigindo mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,3 bilhões) em indenizações e outros custos relacionados a veículos roubados ou danificados em tentativas de furto.
A ação judicial foi reaberta após uma decisão do Tribunal de Apelações do 9º Circuito dos Estados Unidos, permitindo que o caso, anteriormente arquivado, retorne à Justiça Federal da Califórnia. As seguradoras acusam as montadoras de terem omitido deliberadamente o imobilizador eletrônico em versões básicas destinadas ao mercado americano, um item que já era padrão em veículos vendidos em outros países.
A controvérsia gira em torno de modelos fabricados entre os anos de 2011 e 2022, especialmente aqueles equipados com chave convencional e que não contavam com o imobilizador de fábrica. Os modelos com partida por botão, por outro lado, já possuíam essa proteção eletrônica. A ausência do dispositivo tornou esses carros vulneráveis a métodos de furto relativamente simples, que não exigiam conhecimento técnico avançado.
A ascensão dos “Kia Boys” e a viralização dos furtos
O problema ganhou uma dimensão viral a partir de 2021, em Milwaukee, Wisconsin, quando grupos de jovens, apelidados de “Kia Boys” (ou Kia Boyz), começaram a furtar esses veículos para exibi-los nas redes sociais. A prática se espalhou rapidamente, com vídeos ensinando como roubar os carros sendo compartilhados online. Em algumas regiões, como Milwaukee, os furtos de veículos das duas marcas registraram um aumento expressivo, chegando a 2.644% em um ano.
Estudos indicam que a vulnerabilidade foi descoberta por ladrões durante a pandemia, quando muitos carros ficavam estacionados por longos períodos. Modelos como Hyundai Elantra, Sonata, Tucson, Santa Fe, Veloster, e Kia Soul, Sportage, Sorento e Optima estão entre os mais afetados. Em 2022, o Hyundai Sonata se tornou o carro mais furtado em Los Angeles, evidenciando a escala do problema.
Em resposta à crise, Hyundai e Kia lançaram em 2023 uma atualização de software gratuita para dificultar os furtos, afetando cerca de 3,8 milhões de Hyundais e 4,5 milhões de Kias. Para os veículos incompatíveis com a atualização, foram oferecidas soluções como travas de volante e proteções físicas para a ignição. No entanto, a NHTSA, agência de segurança viária dos EUA, já havia associado o fenômeno a pelo menos 14 acidentes e oito mortes.
O argumento das seguradoras e a decisão judicial
As seguradoras que integram a ação coletiva alegam ter desembolsado mais de US$ 1 bilhão para cobrir os prejuízos com os furtos. Elas aplicam o mecanismo de sub-rogação, onde, após indenizar seus clientes, buscam o ressarcimento de terceiros considerados responsáveis. As montadoras, por sua vez, argumentaram que não deveriam estar sujeitas à jurisdição de uma corte californiana apenas por venderem seus carros no estado.
Contudo, o Tribunal de Apelações considerou que o grande volume de embarques dos veículos das marcas através dos portos da Califórnia estabelece uma conexão suficiente com o estado. A produção de modelos com configurações específicas para o mercado norte-americano, justamente as que apresentam a vulnerabilidade, também pesou na decisão. Com isso, o caso foi remetido de volta à corte no condado de Orange, na Califórnia.
Consequências legais e projeção futura
Esta não é a primeira vez que Hyundai e Kia enfrentam consequências legais por essa questão. As empresas já chegaram a um acordo de até US$ 145 milhões em uma ação coletiva movida por proprietários e outro de US$ 9 milhões em uma ação de procuradores-gerais estaduais. Apesar das medidas tomadas, um estudo da UCLA prevê que os furtos desses veículos em Los Angeles podem permanecer elevados até 2042, devido à longa vida útil dos automóveis e à continuidade da vulnerabilidade em modelos usados que não receberam as devidas atualizações de segurança.
