Guerra de Narrativas: CPI do Banco Master Ganha Força com Revelações e Disputas Políticas no Congresso
Pressão por CPI do Banco Master se intensifica no Congresso, gerando guerra de narrativas entre governo e oposição.
A possibilidade de instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Banco Master, alvo de escândalo envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, tornou-se um campo de batalha política no Congresso Nacional. A disputa de narrativas entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a oposição bolsonarista ganha contornos acirrados, com ambos os lados utilizando o tema de olho nas eleições deste ano.
O assunto, que parecia ter perdido força, ressurgiu com força total após revelações sobre as ligações entre o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e o próprio Daniel Vorcaro. Essa nova onda de informações reacendeu o debate sobre a necessidade de uma investigação aprofundada.
Atualmente, o Congresso Nacional conta com um total de sete propostas distintas para a criação de comissões destinadas a investigar as irregularidades envolvendo o Banco Master. Acompanhe os desdobramentos dessa complexa disputa política e os caminhos que podem levar à instalação de uma CPI, conforme informações divulgadas em fontes jornalísticas.
Entenda as regras para a criação de uma CPI
Para que uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) seja formalmente criada, é necessário o apoio mínimo de um terço dos integrantes da respectiva Casa Legislativa. Na Câmara dos Deputados, isso significa a assinatura de pelo menos 171 deputados. No Senado Federal, o quórum exigido é de 27 senadores. Já no caso de uma CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito), que envolve deputados e senadores, é preciso atender a ambos os requisitos simultaneamente.
Além do número de assinaturas, o requerimento para a instalação de uma CPI ou CPMI precisa indicar um fato determinado a ser investigado e estabelecer um prazo certo para o funcionamento da comissão. Após a coleta das assinaturas, o requerimento deve ser lido em sessão para que inicie sua tramitação.
Novos requerimentos e a fila de espera no Congresso
Na Câmara dos Deputados, o deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) já recolheu mais de 200 assinaturas e protocolou um pedido para a criação de uma CPI do Master. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), afirmou que dará “tratamento regimental” à análise do pedido, o que, na prática, significa que ele entra em uma fila de espera. Atualmente, é preciso aguardar a decisão sobre outros 15 pedidos de CPIs apresentados anteriormente.
No Senado, seis requerimentos aguardam a decisão do presidente da Casa e do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP). Ele é o responsável por decidir sobre três pedidos de CPIs apresentados pelos senadores Eduardo Girão (Novo-CE), Carlos Viana (PSD-MG) e Rogério Carvalho (PT-SE).
Além disso, Alcolumbre tem em suas mãos a decisão sobre a leitura de requerimentos para duas CPMIs. Um deles é de autoria do deputado Carlos Jordy (PL-RJ), enquanto o outro partiu das deputadas Heloísa Helena (Rede-RJ) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS). O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) também está coletando assinaturas para um requerimento.
Flávio Bolsonaro e a troca de acusações
Durante a última sessão do Congresso, Flávio Bolsonaro pressionou pela instalação da CPMI do Master, acusando a base governista de não ter assinado o requerimento de Carlos Jordy. “É necessária a instalação da CPMI do Master. Faço um desafio: quero Daniel Vorcaro e Augusto Lima sentados no banco da CPMI, explicando qual era a relação deles com Flávio Bolsonaro, Lula e Alexandre de Moraes”, declarou o senador.
A postura de Flávio Bolsonaro mudou após revelações de que ele teria pedido dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro, e de que visitou o ex-banqueiro enquanto este usava tornozeleira eletrônica. Curiosamente, apesar de cobrar governistas, Flávio assinou apenas a CPMI de Carlos Jordy e uma CPI no Senado de Carlos Viana, não aderindo a outras iniciativas.
Em resposta, o deputado Lindbergh Farias negou as acusações e afirmou que Flávio Bolsonaro deve explicações sobre suas conexões com Vorcaro. “Nós defendemos CPI, é mentira que a gente não assinou CPI. Assinamos a do Rollemberg, assinamos da Heloísa, da Fernanda Melchionna. […] Nós queremos CPI. Mas eu tenho um pedido: me explique como sai dinheiro do Brasil, dinheiro vai para os EUA e o filme é rodado aqui? Cadê a explicação?”, questionou.
Oposição mira no STF e governo busca resposta política
Para a oposição, a pauta contra o Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo a defesa de impeachment de ministros, é vista como uma estratégia para as eleições de 2026. O ministro do STF, Gilmar Mendes, admitiu ser sócio de uma empresa que vendeu participação em um resort a um fundo ligado a Daniel Vorcaro, época em que era relator do caso Master no Supremo.
Por outro lado, o governo, que inicialmente não demonstrava interesse em uma CPI do Master, começou a defender a instalação de uma CPMI após a rejeição no Senado do indicado de Lula ao STF, Jorge Messias, e a derrubada do veto ao PL da Dosimetria. A instalação da comissão passou a ser vista como uma resposta à articulação entre o Centrão e a oposição.
A revelação das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro transformou a CPI do Master em munição para a base governista atacar e, ao mesmo tempo, em escudo para o bolsonarismo defender a ideia de que “não temem uma investigação”. A deputada Fernanda Melchionna (PSOL-RS) afirmou que a coleta de assinaturas para a CPMI governista começou em novembro de 2025, antes do escândalo envolvendo Flávio e Vorcaro.
Recursos ao STF e a incerteza sobre a instalação das CPIs
Diante da negativa dos presidentes da Câmara e do Senado em instalar as CPIs, quatro parlamentares recorreram ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que a Corte obrigue a leitura de seus requerimentos. O deputado Rodrigo Rollemberg argumentou ao STF que Arthur Lira estaria adiando sem justificativa a instalação de uma CPI. No entanto, o ministro Cristiano Zanin negou o pedido, apontando falhas processuais.
O deputado Carlos Jordy também buscou o STF em duas ocasiões, alegando em seu último movimento um fato novo com a omissão de Davi Alcolumbre. Ele argumenta que a instalação da comissão não depende de decisão político-jurídica do presidente do Congresso, sendo automática quando os requisitos constitucionais são preenchidos.
Do lado governista, Lindbergh Farias e Heloísa Helena também recorreram ao Supremo para que Alcolumbre seja obrigado a instalar uma CPMI. O senador Eduardo Girão também entrou com a ação. Os processos estão com os ministros do STF, mas não há prazo para que se manifestem sobre os pedidos.

